Gênesis e Apocalipse

 "Ô abre alas que eu quero passar 
Peço licença pra poder desabafar"

Parece clichê. É clichê. Mas a verdade é que não sei mais como se começa um texto, como se faz um texto ou mesmo para que escrever um texto. Talvez o fato de não saber o porquê escrever justamente seja a causa também de não saber começar. Tal qual Alice, se não sei pra onde o texto deve ir, também não vou saber como começar. Mas o não saber não me impede de, ao menos, tentar.

Comecemos, então, como manda a boa educação: sou "um tal de ...". Prazer. Quem quer que eu seja não faz diferença agora. Não sei por que escrevo e provavelmente escrevo para ninguém. As chances de que alguém me leia, num mundo dominado por vídeos no youtube (que descambaram para os terríveis "shorts"), dancinhas e inutilidades do tiktok e a grande ode ao ego feita de imagens no instagram, são quase nulas. E se não me adapto à cultura atual e busco refúgio nas letras em um antiquado e ultrapassado blog, já entrego ao leitor atento - piada interna: se o leitor é inexistente, obviamente não será atento. Mas, no caso improvável que esse leitor ou leitora venha a existir um dia, entrego uma parte do que sou: um ser de quase meia idade, nasci no século passado.

Agora que as apresentações foram feitas e você já tem algo com o que trabalhar na sua imaginação para um mínimo de solidez daquilo que, com a sua bondade, chamaremos de autor, voltemos à questão dos motivos. Disse meias verdades quando afirmei não saber o motivo de minha escrita. Se é verdade que não sei mais como começar um texto e se é verdade que não sabia, até finalizar o parágrafo passado o objetivo das palavras que constituem esta postagem inicial, sempre soube o que quero com este blog: rememorar, reviver, ressignificar e (por que não?) digerir o passado. Quem sabe assim, eu talvez consiga conferir novamente algum sentido para o presente e,  se Deus permitir (não, não sou cristão, mas uso a expressão por falta de outra melhor no momento), sonhar com a possibilidade de um futuro no qual eu não sinta embaraço em ser quem sou e arrependimento das escolhas que fiz.

Não vou me alongar por demais nessas primeiras estórias. Creio que o dito no momento basta para que você saiba que não sou um pessoa feliz. Já fui. Por muito tempo até. Talvez volte a ser. Mas para isso, primeiro será preciso fazer as pazes comigo. Com o ser deplorável que me tornei com o passar dos anos. É difícil olhar para trás sem me arrepender da maior parte das escolhas que fiz até aqui. Por mais justificáveis que sejam, e acredite, consigo justificar e racionalizar todas elas. Mas entenda, justificar e racionalizar, não significa necessariamente que eu esteja satisfeito com a vida que levei. É somente perceber como o curso de um rio é invariavelmente determinado por seu leito. E isso, meu caro amigo, ou amiga, é o maior problema. Compreendo todas as escolhas que me levaram a trilhar o caminho que me tornou quem sou e me arrependo da maior parte dos passos que dei. 

É desse arrependimento que jorra minha infelicidade atual (maquiada pelo sorriso e por alguma serenidade). A situação se agrava ainda mais porque sei que era (praticamente) impossível que eu agisse de maneira diferente (dado o contexto) e entendo que boa parte da responsabilidade de ser quem sou não é necessariamente minha (sei também que Sartre discorda veementemente do que eu  acabei de escrever, mas do alto de minha insignificância filosófica me reservo o direito de dizer que Sartre está errado).  No final, o que resta é somente isso: alguém que sente vergonha do que se tornou e busca fazer as pazes com o passado transbordante de erros (pequenos, médios, grandes e alguns até mesmo imperdoáveis) na esperança de um que um dia a vida possa ser, ao menos, suportável, caso já não seja mais possível ser feliz olhando para o que acabei fazendo de mim.

P.s: Se você conseguiu chegar até aqui, lhe agradeço imensamente. Peço desculpas, no entanto, pelo tom do texto. Essa, com certeza, não será a tônica dos textos que virão, ainda que possa se insinuar em algumas entrelinhas no futuro. Este é só um reflexo nu e cru do início e do final, da essência, do que me motiva a escrever e que, provavelmente, será a chave para a compreensão de todo o resto. Tentarei não abandonar este blog como já ocorreu com alguns outros (meu histórico não é favorável nesse sentido, mas acho que desta vez conseguirei). Até um próximo dia...

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